sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um dia de cada vez, mesmo atrasado, sempre adiante!

São Paulo, 19 de abril, ano 2010, segunda-feira.

Domingo, 13:14 horas, ele acorda, para a vida, para o mundo, para si? Sim, deitado naquele colchão macio, ruim para coluna porém bom para a mente, olha para a janela aberta com os raios do sol de outono, de samba canção, ao lado um copo de vodka com café pela metade, restos de "cigarrinhos", uma boa música portenha de fundo e sem ressaca pergunta-se, o que aconteceu?

Com certeza havia rolado uma festa com muitos amigos, muita bebida, muita música e muita, mas muita troca de idéias e conhecimentos... olha pela janela e encontra puf's espalhados pelo quintal, latas de cerveja vazias, instrumentos musicais, caminha até a sala e encontra 10 reais com um bilhete "valeu, rock na veia, abraço!", é certo que muita música boa tocou e foi tocada no dia que passou, então liga o som para escutar "Sampa Midnight" de Itamar Assumpção e começar a bombear o sangue para o cérebro. Hoje tem jogo de futebol bom e decisivo, São Paulo contra o Santos, pensa "vamos colocar os moleques da vila pra comer pipoca", Santos 3x0. Antes do início do jogo, ainda em seu quarto que mais parecia um albergue, pensava aonde assistiria o jogo e o que havia acontecido na noite passada, todos os seus amigos estariam na Vila Madalena, uma amiga o esperava no centro da cidade para um "chopinho", ficar em casa parecia a opção mais sensata, sai da Lapa e pega um trem até a Luz, Santana, e vai na contramão de todas as opções domingueiras, mas o que havia acontecido na noite passada? Dentro do trem ele mantém a opção musical, novamente Itamar Assumpção cantando "Sujeito a Chuvas e Trovoadas" no fone de ouvido, olha para o lado e nota uma bela moça lendo uma revista e pescando seus olhos com os dela, ele sorri, responde com olhares mas fica na sua, o jogo do São Paulo e o encontro com os amigos do bairro natal eram sua prioridade naquele momento. Chegando em Santana um casal de amigos já o esperava na saída do metro, Bar do Luis, bicampeão do prêmio Boteco Bohemia com seu clássico bolinho de carne era a melhor opção para aquele domingo de outono ensolarado. Não só Santana, mas a zona norte paulistana em si, sempre teve um ar "interiorano", talvez por se localizar do lado de lá do Rio Tietê, onde há tempos não existia inúmeros viadutos sobre o rio e o acesso não era tão simples, região imortalizada por Adoniran Barbosa em sua canção que contava a história do último trem rumo ao Jaçanã, as 23 horas. Na zona norte as mulheres são mais bonitas e são maioria, elas desfilam, se exibem, mostram seus belos corpos e seu jeito de se vestir um tanto quanto "caipira", independentes, mas sempre a procura de um rapaz gentil e pronto para um relacionamento estável, ao contrário das mulheres de outras regiões da cidade, que enxergam a independência, a solidão e a liberdade de expressão como a melhor opção, ele concorda com elas.

Galera animada, cervejas, paqueras e um bom papo, começa o jogo. Durante, política, relacionamento, trabalho, cotidiano e afins são sempre bons temas pra fazer o tempo passar no boteco. A noite passada continuava sendo uma incógnita, melhor continuar fazendo o tempo passar. Com o Tricolor levando, no dito popular, uma "piaba" do Santos, futebol deixou de ser prioridade naquela tarde, as belas mulheres "caipiras" começaram a encantar seus olhos, tanto as supostamente solteiras como as acompanhadas. Como o brilho de uma pessoa no bar muda de acordo com sua situação. As mulheres acompanhadas são mais arrumadas para seu parceiro praticamente desinteressado, já as solteiras são mais despojadas, se arrumam um pouco menos mas carregam consigo uma energia positiva que ele considera impagável, e mais um pensamento vem a mente, "como a instrospectividade e a solidão fazem bem para o corpo e mente".

Fim de jogo e a zona norte já não é tão bela, a cafonisse começa a incomodar aquele simples rapaz, nada é mais lindo que uma mulher bem arrumada, mas nada é mais prazeroso que uma mulher bem resolvida, a Vila Madalena é sua casa, a Lapa é seu ninho, zona oeste é seu espaço, o centro, talvez. Antes de pegar o ônibus sentido Pinheiros, toma a saideira com uma amiga, troca idéias, ensina, aprende e toca lábios, missão cumprida na zona norte paulistana. Chegando na Vila Madalena encontra pessoas em comum, pede mais uma cerveja e inicia uma nova conversa, mais profunda, diferente do que havia visto há alguns minutos na zona norte, um amigo o encontra e pergunta como foi a festa e o ensaio de ontem, lembrou! Sim, a imagem do amigo perguntando sobre o dia anterior foi como uma injeção de fosfosól na testa, as pessoas dançando na pista, no balcão do bar, as músicas do Social Distortion tocadas no vilão do quintal de casa com a galera, tudo agora fazia sentido, por isso os puf's estavam lá, as latas de cerveja vazia, os "cigarros"... descobre-se então que teve uma noite sem contato feminino, e uma melancolia começa a dominar seu pensamento, para ele passar uma noite sem uma mulher é uma noite perdida, de que vale ter os amigos ao lado, tocar música que é um sonho de infância, dançar, beber, conhecer pessoas, se não "pegar ninguém"? A vida realmente é muito injusta!

A trilha sonora no fone de ouvido muda, a música "Naturalmente Artificial" da banda punk gaúcha, Tequila Baby, é a melhor opção para o momento, que se dane se para seus amigos ele mais parecia um autista na mesa do bar, nada mais tem importância a não ser aquilo que ele acreditava naquele momento. Aquela amiga estava louca para ir com ele para casa, dela ou dele, mas para ele a luta presidencial entre Dilma e Serra, os atuais desastres naturais do planeta, aquela criancinha que foi estuprada pelo padrasto ou a final do campeonato amador de dominó tinha muito mais importância, se despede e caminha sentido Lapa, encontra outro amigo na Vila e toma sua saideira, cerveja?... melhor um "Iced Coffee". Lá conhece três atrizes de teatro, uma delas bem "apessoada", estavam atuando na peça de algum teatro mequetrefe da Praça Roosvelt, muito legal, conversam sobre o mundo artístico, ele apresenta uma banda de Buenos Aires para as garotas, elas se apaixonam pelo momento, para ele, seu amigo e suas novas colegas, o mundo estava perfeito naquele momento, ele aprende coisas com elas e elas com eles, pensamentos que não se aprende na escola nem em casa, coisas da vida, beijos, troca de telefone e um adeus literário no sentido da palavra, agora sim Lapa, casa e descanso. Os puf's continuam espalhados no seu quintal, as latas vazias, as bitucas de cigarro, tudo lá, do jeito que ele havia deixado, ou melhor, do jeito que sua vida havia deixado, lembra de uma outra amiga e novamente coloca no aparelho de som Itamar Assumpção, "Vou de Vai-Vai", lembra dos belos momentos que a saracura do Bexiga lhe deu. São Paulo, a cidade, é foda.

Deita para dormir naquele domingo de outono com medo, será que a segunda será como o domingo, sem lembrar de sábado? Sem sentido, ele sabe que vai lembrar apenas das coisas que interessam a ele, o que interessa ao próximo, é problema do próximo, afinal ele já tem problemas demais, tentando descobrir o que é problema dele.

Acorda na segunda-feira e praticamente não se lembra do domingo, lá estavam os puf's, as latas de cerveja, as bitucas de cigarro e a certeza de que sua mente estava mais completa que no dia anterior, e estará ainda mais no dia posterior. Ele pensa, "desencana, melhor viver um dia de cada vez", toca o telefone e uma bela voz feminina diz, "vamos ao teatro?", e pensa novamente "mais um domingo paulistano!".

Te ligo mais tarde!

Bird.

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